O Cuidado de Alto Valor

Saúde e Movimento 7 min de leitura

Gabriel Mader de Oliveira
Fisioterapeuta | Crefito-4 294644F

Durante muito tempo, acostumamo-nos a associar qualidade em saúde à incorporação de novas tecnologias. Equipamentos mais sofisticados, exames mais detalhados, procedimentos mais complexos e tratamentos cada vez mais especializados frequentemente são percebidos como sinônimos de melhor assistência. Mas será que essa associação é verdadeira?

O que é um cuidado de alto valor

Nos últimos anos, um conceito tem ganhado espaço justamente por desafiar essa lógica: o cuidado baseado em valor (value-based healthcare). Embora tenha surgido inicialmente no contexto da gestão em saúde, seu significado ultrapassa em muito questões administrativas ou econômicas. Trata-se, sobretudo, de uma forma diferente de pensar o cuidado.

A ideia é simples. O valor de uma intervenção não depende apenas do quanto ela custa, mas principalmente do que ela consegue entregar para a vida da pessoa que recebe aquele cuidado. Em outras palavras, valor representa a relação entre os desfechos que realmente importam para o paciente e os recursos empregados para alcançá-los.

Essa definição nos obriga a abandonar uma pergunta muito comum: “qual é o tratamento mais moderno?”. Em seu lugar, surge uma questão bem mais relevante, que é: “qual intervenção produz o maior benefício possível para esta pessoa, considerando os recursos necessários para alcançá-lo?”.

Essa mudança de perspectiva altera completamente a forma como avaliamos a qualidade do cuidado. Escrevo esse texto pois muitos de nós ainda confundem custo com valor e sofisticação com qualidade.

Dois casos, dois resultados diferentes

À título de exemplo, trago aqui 2 casos clínicos: no primeiro, a pessoa consulta diversos especialistas, realiza sucessivos exames de imagem, utiliza vários medicamentos, passa por um processo de reabilitação com condutas predominantemente passivas e às vezes até passa por um procedimento invasivo ou minimamente invasivo na tentativa de reduzir a dor, mas continua limitado para trabalhar, caminhar ou brincar com os filhos.

No segundo, o paciente recebe uma boa avaliação clínica, nem chega a fazer exames de imagem (pensando que, no caso dele, isso de fato não seja necessário), entende melhor sua condição, participa de um programa de exercícios adaptado às suas necessidades funcionais, aprende estratégias para lidar com a dor e suas possíveis oscilações ao longo do tempo e, alguns meses depois, retoma grande parte das suas atividades.

O primeiro paciente provavelmente consumiu muito mais recursos.
O segundo, com certeza, recebeu muito mais valor.

O que caracteriza uma intervenção de baixo valor

Intervenções de baixo valor são aquelas que oferecem pouco ou nenhum benefício clínico relevante, podem expor o paciente a riscos desnecessários e ainda consomem tempo, recursos financeiros e energia do próprio paciente. Não se trata apenas de desperdício econômico. Trata-se de desperdício de oportunidades e, mais importantemente, de tempo.

Cada consulta ocupada por uma intervenção inefetiva, cada exame solicitado sem modificar a tomada de decisão clínica e cada procedimento realizado sem benefício proporcional representam tempo e recursos que poderiam estar sendo direcionados para estratégias mais efetivas.

Por que exercício e educação em saúde valem tanto

Mas talvez o aspecto mais interessante dessa discussão seja perceber que algumas das intervenções de maior valor disponíveis atualmente são, paradoxalmente, também algumas das menos dispendiosas.

Na área da dor musculoesquelética, por exemplo, poucas recomendações aparecem com tanta consistência nas principais diretrizes internacionais quanto o exercício terapêutico e a educação em saúde.

Isso não acontece porque sejam intervenções baratas, acontece porque conseguem reunir uma combinação rara de características desejáveis: apresentam eficácia clínica consistente, podem ser adaptadas às necessidades individuais, favorecem autonomia, possuem excelente escalabilidade e produzem benefícios importantes utilizando relativamente poucos recursos.

O principal benefício do exercício terapêutico talvez não seja apenas reduzir dor ou melhorar função. O exercício permite que a própria pessoa participe ativamente de sua recuperação. Ele não depende exclusivamente do ambiente clínico, pode ser adaptado ao contexto de vida do paciente e tende a produzir efeitos que ultrapassam o período de tratamento.

Algo semelhante acontece com a educação em saúde. Quando uma pessoa compreende melhor sua condição, entende que a dor nem sempre representa dano tecidual, aprende a manejar oscilações naturais dos sintomas e desenvolve maior confiança para retomar suas atividades, ela deixa de ocupar uma posição exclusivamente passiva no tratamento.

Ou seja, com ambas, o objetivo é aliviar os sintomas e construir autonomia.

Do “fazer pelo paciente” para construir autonomia

E talvez seja justamente aí que esteja uma das maiores contribuições das ciências da reabilitação para a discussão sobre valor.

Durante décadas, grande parte da prática clínica concentrou seus esforços em “fazer algo” pelo paciente. Aplicar uma técnica, realizar um procedimento, prescrever um recurso terapêutico. Embora essas estratégias possam ter seu espaço, elas devem ser bem indicadas e de maneira geral elas colocam o profissional como protagonista da recuperação.

O cuidado baseado em valor propõe, de certa forma, uma inversão dessa lógica.

O profissional continua sendo indispensável, mas seu papel deixa de ser apenas aplicar intervenções. Passa a ser ajudar a pessoa a desenvolver conhecimentos, habilidades e confiança suficientes para retomar sua vida com o máximo de autonomia possível.

E essa busca por dar mais autonomia aos pacientes talvez seja uma mudança de paradigma ainda pouco discutida.

O que realmente define o sucesso de um tratamento

Outro ponto importante é que o sucesso de um tratamento deve ser medido pela capacidade de devolver à pessoa aquilo que realmente importa para ela, como: voltar ao trabalho, dormir melhor, brincar com os filhos (ou netos), caminhar sem medo, viajar, retomar atividades abandonadas… Em última análise, viver com mais autonomia e participação social.

Isso exige também uma mudança na forma como nos relacionamos com nossos pacientes.

O cuidado de alto valor é um cuidado centrado no paciente. Essa forma de cuidar passa por compreender quais são os objetivos daquela pessoa, por envolver o paciente nas decisões terapêuticas, por construir metas compartilhadas e reconhecer que diferentes indivíduos atribuem valores diferentes aos mesmos desfechos clínicos.

A pergunta que deveria guiar toda decisão clínica

Enfim, talvez as principais lições do cuidado baseado em valor são: um tratamento tecnicamente impecável pode ter pouco valor se não fizer sentido para quem o recebe; e que o maior valor nem sempre nasce da intervenção mais sofisticada, ele nasce da combinação entre boa evidência científica, escuta qualificada, decisão compartilhada, e respeito às prioridades de cada indivíduo.

No fim das contas, a pergunta que deveria orientar a prática clínica é surpreendentemente simples:

O cuidado que estou oferecendo melhora, de verdade, a vida desta pessoa?

Se a resposta for positiva, podemos lançar mão tanto de um equipamento de última geração quanto de uma conversa de qualidade acompanhada por um programa de exercícios bem estruturado, pois temos a convicção de que estaremos oferecendo exatamente o que o paciente necessita para recuperar sua funcionalidade da melhor maneira possível.

Porque o verdadeiro valor do cuidado não está na complexidade da intervenção.
Sempre esteve na transformação que ela é capaz de produzir na vida das pessoas.


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